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sexta-feira, 7 de agosto de 2026 · Edição digital

EconomiaAnálise

Em MT, onde o agro chegou, a pobreza recuou

Em 1991, Mato Grosso estava na pior faixa de desenvolvimento humano do país. Em 2010, na segunda melhor.

Por Rui Bastos

4 min de leitura
Em MT, onde o agro chegou, a pobreza recuou

Crédito: Rede Eixo

Em 1991, Mato Grosso marcava 0,449 no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal. Não é um número que precise de interpretação: na classificação oficial, qualquer resultado abaixo de 0,500 é muito baixo — a pior das cinco faixas da escala. O estado inteiro estava nela.

O IDHM é calculado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento em parceria com o Ipea e a Fundação João Pinheiro, a partir dos microdados do Censo Demográfico do IBGE. Mede três coisas: quanto as pessoas vivem, quanto estudam e quanto ganham. É o retrato mais confiável que existe sobre a vida em cada município brasileiro — e o Brasil só o produz nos anos de Censo.

O que os censos registraram

Entre um Censo e outro, a lavoura pesada avançou pelo norte e pelo leste de Mato Grosso. Foi soja, foi milho, foi algodão — e, atrás delas, estrada, energia, silo, banco, escola e hospital.

Em 2010, no Censo seguinte e pela mesma medida, o estado marcava 0,725. Faixa alta, a segunda melhor da escala. Em dezenove anos, Mato Grosso atravessou três faixas inteiras: saiu de muito baixo, passou por baixo e por médio, e chegou a alto.

Cidade por cidade

O avanço não foi uniforme, e é aí que o dado fica interessante. Sete municípios levantados, todos com o mesmo salto de duas faixas — mas partindo de lugares muito diferentes:

Município199120002010
São José do Xingu0,2960,4970,657
Querência0,4090,5410,692
Canarana0,4800,5650,693
Sinop0,5000,6260,754
Sorriso0,5170,6640,744
Lucas do Rio Verde0,5490,6580,768
Cuiabá (capital)0,5690,6920,785

Sinop, Sorriso e Lucas do Rio Verde saíram da faixa baixa, passaram pela média no Censo de 2000 e terminaram na alta. São José do Xingu, Querência e Canarana partiram da faixa muito baixa — a mesma do estado — e chegaram à média.

São José do Xingu saiu de 0,296 e chegou a 0,657. Mais que dobrou o próprio índice em dezenove anos.

A capital ficou para trás

Cuiabá tem o melhor índice da tabela em 2010: 0,785. Mas foi quem menos avançou. Saiu de 0,569 e cresceu 38% no período — o pior desempenho entre os sete municípios levantados. São José do Xingu cresceu 122%, Querência 69%, Sinop 51%.

O padrão é quase uma linha reta, e ele se inverte: quanto mais baixo o ponto de partida em 1991, maior foi o avanço até 2010. Há uma única exceção na lista — Sinop começou acima de Canarana e ainda assim cresceu mais. Fora ela, a ordem é exata.

Onde já havia cidade formada, estrutura pública e comércio, o avanço foi o menor de todos. Onde quase não havia nada em 1991, foi onde mais mudou.

O que este dado alcança — e o que não alcança

Vale registrar o limite, porque ele costuma ser omitido. A série municipal do IDHM termina em 2010. O índice depende dos microdados do Censo para descer ao nível de município, e a versão calculada a partir de 2012 usa a PNAD Contínua, que só tem representatividade por estado. Não existe IDHM municipal para 2020 ou 2022.

Daí nasce uma confusão frequente. A página oficial do IBGE para Mato Grosso exibe hoje um IDH de 0,736, referente a 2021 — valor da série nova, de outra metodologia e outra fonte. Ele não é comparável ao 0,725 de 2010 usado nesta reportagem, nem aos índices municipais da tabela acima. São dois indicadores de nome parecido e conteúdo diferente: o IDH estadual e o IDHM. Cada página de município do IBGE, ao contrário, traz o IDHM com o ano marcado — 2010 — e é dela que saem os números conferidos aqui.

Ou seja: tudo o que está acima é o retrato até 2010 — e já era esse.

O que continuou sendo medido

O IDHM municipal parou. As contas nacionais, não. Pelas Contas Regionais do IBGE, Mato Grosso respondia por 1,29% do Produto Interno Bruto brasileiro em 2002, primeiro ano da série atual. Em 2010 — o ano do último retrato do IDHM — eram 1,46%. Em 2023, 2,49%.

O estado quase dobrou seu peso na economia do país em duas décadas, e a maior parte desse avanço veio depois de 2010. Vale o registro: a travessia de faixas descrita acima aconteceu num Mato Grosso que ainda representava menos de 1,5% do PIB brasileiro. O que veio depois disso, o IDHM não alcançou — mas o PIB alcançou, e ele não recuou.


Fontes: Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, PNUD/Ipea/Fundação João Pinheiro, com base nos Censos Demográficos de 1991, 2000 e 2010 (IBGE) — valores conferidos município a município nas páginas oficiais do IBGE, linkadas na tabela. Participação no PIB calculada a partir das Contas Regionais do Brasil (IBGE), tabela 5938, série 2002-2023.

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Repórter de política e economia da Rede Eixo. Acompanha o poder público e o agronegócio.